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Família Portofino,

Mais um dia tenso e de extrema volatilidade nos mercados. Confesso que o fechamento me deixou um pouco mais tranquilo. O drible dado pelo governo à regra do teto deixou os mercados completamente disfuncionais nos últimos dias, hoje em especial. O anúncio da permanência do ministro Paulo Guedes na pasta da economia e as palavras de suporte vindas do presidente Jair Bolsonaro foram o gatilho para um importante ajuste dos preços dos ativos brasileiros ao longo da tarde.

A despeito da insistência na retórica de manutenção do arcabouço fiscal e respeito ao teto, a verdade é que a estratégia escolhida para acomodar o novo Bolsa Família no orçamento quebrou a confiança dos agentes. Temos um novo normal fiscal, entramos em um regime diferente. Este novo regime fragiliza o controle dos gastos dado que se perdeu a antiga âncora fiscal. Novo regime, novo cenário, novos preços. Pode soar prematuro, mas é razoável afirmar que já contratamos um ambiente de inflação ainda mais pressionada, juros estruturalmente mais altos, crescimento ainda menor para o próximo ano e câmbio mais depreciado.

Ao longo da semana que vem, começaremos a conviver com as reais consequências da decisão tomada pelo governo. O Comitê de Política Monetária – COPOM – se reúne na próxima quinta-feira para deliberar sobre a nova taxa SELIC. Até antes de toda essa crise, nosso banco central vinha sendo vocal quanto a sua estratégia de gradualismo na estratégia de condução da política monetária. O plano de voo sempre foi aplicar passos de aumento de 1%, enquanto monitorava a manutenção da ancoragem das projeções de inflação, principalmente para um horizonte de 12 a 18 meses à frente. Plano esse sempre condicionado à manutenção da austeridade nos gastos públicos.

Hoje a curva de juros futuros, considerando a melhora após o anúncio de permanência do ministro, precifica a 1,5% e é altamente provável que o  Banco Central ratifique as expectativas do mercado. Os economistas começam a revisar suas projeções e tudo indica que migrem para um final de ciclo por volta de 11% ou um pouco mais. Selic de dois dígitos, observada pela última vez no primeiro semestre de 2017. O custo econômico da decisão tomada de forma atabalhoada deverá ser bastante superior aos R$ 80 bilhões pretendidos pelos congressistas. Somente o aumento do serviço da dívida pública com o pagamento de juros maiores e menor arrecadação em função da retração da atividade superarão este montante.

Quanto ao custo político para o presidente da república, difícil de se traduzir em números, porém certamente será relevante. A conferir.

Bom fim de semana a todos.

Depois desses últimos dias, todos merecemos!

Edu Castro
Chief Investment Office
Portofino Multi Family Office

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Eduardo Castro é CIO (Chief Investment Office) na Portofino Multi Family Office.

”Causa e Efeito” é um conteúdo exclusivo para clientes Portofino que traz uma visão técnica sobre o que aconteceu no mundo, na semana e seus reflexos nos mercados financeiros globais.

Quem diria que chineses também tem feriados prolongados? O calendário da “Golden Week” por lá começou na segunda, com uma boa dose de delirium tremens em terras tupiniquins, por conta da síndrome de separação experimentada por desesperados usuários, de um Whatsapp inoperante.

4 Meses}
Reconheço que ando me repetindo. Mas, o faço na esperança de provocar uma reflexão útil. Relembremos as narrativas que dominaram o último quadrimestre, de Junho à Setembro. O final de junho foi atrapalhado pelo balde de água fria que representou a versão inicial da proposta de reforma tributária. Já julho padeceu de ruídos em torno do parcelamento de precatórios, votação eletrônica, e bolsa família. Em agosto, foi a divulgação da proposta de orçamento do governo para 2022, que pareceu ter azedado o finalzinho do mês. Agora em Setembro, somos surpreendidos com o susto da chinesa Evergrande, e até com uma crise energética mundial (quem diria? não estamos sozinhos!) que parecia não estar no radar de ninguém. Já como humanidade, parece que aprendemos à conviver com o desenrolar da crise Covid, ao mesmo tempo que cicatrizamos das feridas por ela causadas. Meu ponto? Me parece haver um certo mau humor desmesurado, quase um catastrofismo, que tomou conta do noticiário, e foi amplamente abraçado pelo mercado financeiro. Não quero parecer sofrer de um caso agudo de Polianismo, mas, neste curto prazo, parece haver muito ruído e pouco sinal nestes desenvolvimentos.

Conflito de Interesses
IA crise política “da semana” esteve centrada em torno dos investimentos no exterior do nosso ministro Guedes, em particular através de uma companhia de investimentos offshore. Já temos combinado aqui entre a gente, que investir além de nossas fronteiras é algo que proponho faça parte das considerações de todas nossas famílias, em proporções a serem ajustadas conforme o caso. Está posto também que o câmbio provavelmente não apresenta um momento propício para realizar grandes movimentos. No entanto, meu ponto aqui é outro. Offshores são veículos absolutamente legais, cuja declaração no IRPJ segue regras bem definidas. A crítica da mídia centrou-se num potencial conflito de interesses do nosso chefe das finanças, ao considerar o impacto de decisões econômicas em suas finanças pessoais. A chamada “teoria do agente-principal”, ou, em inglês, “agency dilemma” cobre justamente este tipo de situação onde uma pessoa (o agente) tem capacidade de tomar decisões ou executar ações que impactem à outro (o principal), e pode se ver tentado a agir em seu próprio benefício e interesse, que pode ser contrário ao do principal. Na literatura, este tipo de problema é amplamente estudado por pensadores como Danny Kahneman, e provocadores como Nassim Taleb. Independentemente da situação específica do ministro, este “conflito de agência” é presente em uma séria facetas do nosso dia a dia, e é exacerbado sempre que há uma grande assimetria informacional entre as duas partes.

Conflito de Interesses II
Me explico. Se você, como eu, adora carros antigos – sim, aqueles dotados daquele esquisito terceiro pedal, e que teimam em pingar óleo – então é forçado à frequentar oficinas mecânicas. E, à menos que você seja um entusiasta do assunto, há uma assimetria informacional enorme entre você e o mecânico. Ou seja, é muito difícil questionar um diagnóstico, ou mesmo validar o escopo de um dado serviço de reparo. Para piorar a situação, as decisões tomadas pelo agente (neste caso, o mecânico) tem impacto financeiro direto sobre o principal (o dono do veículo), já que cada peça trocada, ou cada serviço executado, é adicionado à conta final. Terreno fértil para oficinas inescrupulosas, e motivo, penso eu, que tantos de nós optamos por trocar carros assim que a garantia expira, ou mesmo partir para os sistemas de assinatura que andam se popularizando.

Conflito de Interesses III
Bem, este introito demorado me permite chegar no ponto que buscava. Serviços financeiros claramente oferecem inúmeras armadilhas no sentido de conflito de interesses. Os antigos já sabiam disso, e a frase em latim “caveat emptor” (ou “comprador, (tome) cuidado”) expressa justamente o cuidado que consumidores (investidores, neste caso) precisam exercer. Modernidades como a internet, assim como pressão regulatória, acabaram por jogar muita luz no assunto, e buscam trazer transparência e acesso rápido à informação sobre o mercado. Mas, o “senhor mercado” infelizmente teima em reagir com crescente complexidade, tecnicalidades, e jargão próprio. Penso que um dos maiores conflitos de interesse do mercado é o recebimento, de forma não divulgada ou não transparente, de benefícios, vantagens e comissões pela venda de produtos – fazendo com que o investidor eternamente se pergunte à qual interesse aquela sugestão de alocação realmente atenderia. Conflitos de interesse infelizmente são da natureza humana. Lhes deixo com minha recomendação de que sempre cobrem de seus assessores, consultores e gestores total transparência na forma como são remunerados, e um alinhamento de interesses que só é possível por aqueles que priorizam elevados padrões de conduta, como a adesão ao dever fiduciário. Para os que ainda não são nossos clientes, fica o convite para vir conhecer a tranquilidade e os resultados que uma relação transparente oferece.



Concluo esta carta mais curtinha – afinal, é sexta-feira véspera de feriado! – com uma recomendação de uma excelente série na Amazon Prime. “Nine Perfect Strangers”, traduzido como “Nove Desconhecidos”, é tanto estrelado como co-produzido pela minha diva Nicole Kidman. Os que me acompanham desde o final do ano passado se lembrarão da minha recomendação pela série da HBO “The Undoing”, na carta #64, com a mesma multitalentosa Nicole. As duas séries compartilham a curta duração, 8 episódios no caso dos 9 desconhecidos, que encaixa bem com minha auto-promessa de não enveredar por séries que me levarão anos para assistir. A trama é baseada no romance homônimo da australiana Liane Moriarty, e gira em torno do retiro espiritual proporcionado pela “Tranquilium House” – que de tranquila pouca coisa tem. Em outras notícias, aproveito para lembrar que a famosa série “Billions” voltou à filmar e lançar novos episódios, depois de ter sido interrompida no meio da quinta temporada por conta da Covid. Prometo que você vai tomar um susto ao ver o novo visual do Chuck. Já Axe permanece o vilão adorável de sempre.

Esta carta semanal tem o objetivo de fazer um apanhado breve e bem-humorado das notícias do mercado financeiro, com foco nos temas de gestão de riqueza e planejamento financeiro. O texto não constitui nenhuma oferta de produto financeiro, ou recomendação de investimento. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem o posicionamento oficial da Portofino Multi Family Office.

Pedro Saboia é sócio da Portofino Multi-Family Office, investidor profissional, CEA (Certificação de Especialistas em Investimentos ANBIMA) e Consultor de Valores Mobiliários autorizado pela CVM, conforme instrução 592. A Portofino cuida das pessoas para que alcancem um futuro financeiro equilibrado – com ética, transparência e responsabilidade. Quer conhecer mais? Agende uma conversa.

Família Portofino,

Mais uma semana de extrema volatilidade nos mercados! No Brasil, qual a razão de um fechamento tão forte do Ibovespa e queda nas taxas prefixadas no pregão de hoje? Nos Estados Unidos, o que explica a recuperação do SP500 das mínimas da semana?

Temos insistido na tese de que os mercados irão, no fim das contas, tentar precificar se um aumento significativo da inflação, independente se por restrição de oferta, aumento da demanda ou os dois simultaneamente, forçará os bancos centrais a anteciparem a retirada de estímulos e consequentemente antecipar a elevação dos juros. Ao fim e ao cabo, quão ameaçado estará a continuidade do crescimento das economias passado o pico da pandemia.

Localmente, depois de uma sequência de dados bastante ruins, o IPCA de setembro, divulgado hoje, surpreendeu positivamente. A mediana das estimativas apontava para 1,25% e o número divulgado registrou “apenas” 1,16%.
O índice de difusão, número que mostra o percentual dos bens e serviços que registraram alta no mês, caiu de 71,9% para 65%. É muito provável que a inflação de 12 meses em 10,25% tenha atingido o seu pico. Do lado da atividade, os dados de vendas no varejo, também divulgados durante a semana, vieram bem abaixo do esperado pelo mercado, queda de 3,1% contra uma expectativa de alta de 0,7%.

Simplificando, menos inflação e menor crescimento implicariam em um ciclo mais curto de aumento de juros. Bom para posições prefixadas e para a renda variável.

Lá fora, exceção feita ao petróleo, pudemos observar algum arrefecimento nos preços das commodities de energia, principalmente o gás natural. Nos Estados Unidos, a criação de empregos formais mais uma vez surpreendeu
negativamente.
O banco central americano tem o duplo mandato de, em simultâneo, controlar a inflação e reduzir o desemprego. Dados positivos, na margem, relativos aos preços de energia e piores quanto à criação de emprego,
no mínimo, reforçam a tese de retirada gradual de estímulos e pouca urgência para o aumento dos juros. Mais crescimento com inflação controlada, mesmo que em níveis historicamente mais altos, é bom para ativos de risco.

A sexta-feira termina mais positiva, sem dúvida. Será essa dinâmica de maior ou menor inflação, juros e crescimento que continuará ditando a volatilidade dos mercados, sempre dependente dos dados a serem divulgados ao longo do tempo e da continuidade ou não da recente pressão nos preços das commodities.

Semana que vem tem mais!
Edu Castro
Portofino Multi Family Office

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Eduardo Castro é CIO (Chief Investment Office) na Portofino Multi Family Office e semanalmente escreve a carta
”Causa e Efeito”. Um conteúdo descomplicado, com a sua visão técnica e reflexiva sobre o que aconteceu no mundo e os reflexos nos mercados financeiros globais. Aproveite a leitura!

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Família Portofino,

No cenário externo, começamos o 2º semestre monitorando a evolução do processo inflacionário global explicado principalmente pela elevação dos preços de energia e gargalos nas cadeias de produção. Estes choques de oferta fizeram com que parte do mercado passasse a considerar a aceleração da retirada dos estímulos e a antecipação do aumento de juros por parte dos bancos centrais dos países desenvolvidos.

A guerra de retóricas entre aqueles que acreditam em um processo inflacionário temporário e localizado contra aqueles que esperam algo mais persistente e disseminado irá continuar pelos próximos meses. Nossa opinião permanece a mesma. Continuamos a considerar como provável a sustentabilidade do crescimento global, a despeito de ações mais restritivas por parte dos bancos centrais, na margem.

Localmente, a trégua política entre a Presidência da República e o STF, permitiu que o Congresso e o Ministério da Economia voltassem a discutir soluções que acomodem na regra do teto de gastos o pagamento dos precatórios e a criação de um novo programa de transferência de renda, o Auxílio Brasil. A um ano das eleições, se faz necessário acompanhar com cuidado o desenrolar dessas negociações, com particular atenção a possível inclusão de “jabutis” com impacto negativo do lado fiscal.

Do ponto de vista dos nossos portfólios, decidimos, no nosso último Comitê de Investimentos, substituir parte do nosso risco direcional em bolsa brasileira por uma combinação de maior exposição em S&P500 e posições prefixadas no Brasil.

A troca de parte do risco local de bolsa local por S&P500 se deu pelas seguintes razões:

i. As projeções de crescimento da economia americana para 2022 permanecem por volta de 5% enquanto para o Brasil, as projeções têm sido constantemente revisadas para baixo. Crescimento por volta de 0,5% já não é visto como sendo tão improvável.

ii. Trabalhamos com a continuidade do crescimento dos lucros das companhias americanas. Para o Brasil, a desaceleração do crescimento fará com que seja ainda mais importante a escolha de empresas e setores que consigam navegar bem nesse ambiente menos favorável. Desta forma, continuaremos concentrando nosso risco de bolsa local na estratégia de seleção de gestores independentes, agora não mais combinada com posições passivas direcionais em índice Ibovespa e Small Caps.

iii. A extensão do processo de aumento de juros no Brasil para níveis próximos a 9%, fará a gestão de renda variável no Brasil ainda mais desafiadora.

Trabalhamos com o início do aumento de juros nos Estados Unidos somente para o final de 2022, na pior das hipóteses.

Já o processo de substituição de parte do risco de renda variável por ativos prefixados, se dará de forma gradativa com o intuito de preparar as carteiras para um ambiente local mais incerto e volátil em função dos desafios que se avizinham na condução da política monetária e na intensificação do processo eleitoral ao longo dos próximos meses. Apesar da óbvia correlação entre a renda fixa prefixada e o

Ibovespa, a relação risco x retorno da renda fixa nos parece mais favorável. A nossa curva de juros já projeta acima de 10% para o final do próximo ano.

Estamos à disposição para dividir em detalhes com vocês todo o racional da nossa decisão e a estratégia de implementação.

Aproveitem o fim de semana!

Edu Castro

Chief Investment Office

Portofino Multi Family Office

www.pmfo.com.br/on

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Eduardo Castro é Chief Investment Office na Portofino Multi Family Office.
Em sua carta “Causa e Efeito”, uma publicação exclusiva, traz os principais fatos da semana e os reflexos nos mercados financeiros globais.

Família Portofino,

Ufa! Finalmente uma semana que termina um pouco mais positiva para os mercados! 

Do lado doméstico, o poder Executivo conseguiu articular com o Congresso o encaminhamento de uma solução, mesmo que imperfeita, para a questão dos precatórios. Com o estresse político mantido em banho-maria, Guedes, Lira e Pacheco conseguiram se acertar e retomaram as negociações do lado político, negociação esta que incluiu também a continuidade das reformas estruturantes. A intenção é que a reforma tributária, a  PEC dos precatórios e a reforma do IR sejam resolvidas até o fim do ano. O risco agora passa a ser a tramitação. A conferir.

Na semana passada, mencionamos a importância de se acompanhar a divulgação do comunicado da reunião do COPOM visto que a decisão de elevação de 1% já havia sido previamente telegrafada pelo Roberto Campos no evento BTG Macro Day. A grande verdade é que os economistas se encontram meio perdidos quanto à condução da política monetária por isso tivemos interpretações diametralmente opostas do comunicado.  Lembrando que pelo comunicado, nosso banco central já se comprometeu com um aumento adicional de 1% na próxima reunião, algumas casas interpretaram o texto como mais brando, passando a trabalhar com a hipótese de redução do ritmo a partir da reunião de dezembro. Outros, porém, reafirmaram suas convicções quanto ao ciclo mais longo. Cresceu, portanto, a relevância da leitura atenta da ata a ser divulgada na próxima quarta.

Esta discussão é fundamental para definirmos nossa estratégia de alocação considerando que operações de carregamento de renda fixa ganham atratividade em um cenário de Selic por volta de 9%. Outra discussão derivada da alocação em papéis da renda fixa, é a escolha do indexador mais apropriado. É bom termos em perspectiva que para esse nível de taxas de juros, considerando uma inflação próxima a 4% a.a., teríamos que buscar papéis com cupom acima de 5% a.a. para superar o CDI, pelo menos enquanto as taxas se mantiverem nesses níveis. Para as nossas alocações futuras, já estamos de olho na diversificação com papéis de crédito privado emitidos em CDI+. E para apimentar ainda mais essa discussão, o IPCA-15 veio acima do esperado pelo mercado, o que certamente suscitará revisões para o IPCA fechado de 2021.

Lá fora, o banco central americano, o FED, confirmou sua intenção de dar início à retirada de estímulos para o final do ano, mas nós, particularmente, interpretamos a mensagem como sendo mais preocupada.  Terminado o processo de compra de ativos, o passo imediatamente posterior seria o início da alta de juros. Verificando as sinalizações dadas pelos membros do comitê de política monetária, o FOMC, diferentemente da informação anterior que projetava o início do ciclo de aumento dos juros somente em 2023, alguns dos seus diretores já trabalham com a possibilidade de se antecipar o início do processo para 2022. Apesar de ter condicionado o início da normalização às condições gerais da economia ao longo dos próximos meses, já temos um sinal de que o pêndulo se moveu mais para o lado da preocupação com inflação antes claramente mais do lado das dúvidas quanto à consistência da retomada da atividade pós-Covid.

Um banco central mais preocupado com a inflação sinalizando um início mais próximo da retirada de estímulos e aumento de juros deveria ter sido percebido como ruim para os mercados, certo? Errado! Na verdade, depois da realização recente dos preços, o S&P comemorou a confirmação por parte do FED de que a recuperação da economia continua consistente e que, portanto o resultado das empresas continuarão sendo robustos. Uma notícia potencialmente ruim foi vista como positiva; é o mercado querendo ser feliz! Bom no curto-prazo, mas acende uma luz amarela, o que nos faz monitorar esse risco ainda mais de perto.

Por fim, vamos entrar no final de semana sem que a incorporadora chinesa Evergrande tenha feito o pagamento dos juros vencidos de um título em dólar no valor de U$ 82,5 milhões. O que mais nos preocupa nesse caso não é só a possibilidade de não pagamento até porque descartamos um eventual efeito dominó com consequências mais sistêmicas. Nos preocupa sim, o risco de uma maior desaceleração da economia chinesa e principalmente seu impacto sobre os preços das commodities.  Grande parte da queda do minério de ferro, por exemplo, é explicada pela crescente regulação do governo chinês e seu impacto sobre o setor imobiliário.

Aproveitem o final de semana!

Eduardo Castro.

 

Eduardo Castro é Chief Investment Office na Portofino Multi Family Office. Em sua carta “Causa e Efeito”, uma publicação exclusiva, traz os principais fatos da semana e os reflexos nos mercados financeiros globais.

Semana curta nos mercados financeiros, com o feriado de “labor day” nos EUA, na segunda-feira, e nosso feriado nacional na terça, porém com forte carga emocional e política.

Para completar, amanhã temos o aniversário de 20 anos dos ataques de 11 de setembro (“9/11”) aos EUA. Ainda que me lembre como se fosse ontem, me dei conta que há toda uma geração de jovens para quem a data talvez tenha pouca relevância. Na época, ainda durante minha carreira corporativa, era responsável por TI em uma multinacional de telecom. Além de traumático em mais níveis do que se possa imaginar, o evento inaugurou uma nova era de foco empresarial em planejamento de contingência, e recuperação de desastres.

Na busca por fazer sentido de uma semana tão desconcertante e beligerante para nosso pais, recorro novamente à uma citação atribuída ao escritor Mark Twain: “I’ve lived through some terrible things in my life, some of which actually happened.” – numa tradução livre, “já passei por coisas terríveis em minha vida, algumas das quais realmente ocorreram”.
Mares Revoltos
Na carta passada comentei sobre os impactos da situação atual na performance recente de nossos investimentos. A temperatura aumentou depois das falas do presidente no dia 7, causando repiques expressivos nos juros futuros e no dólar, e uma queda significativa de 3,78% na bolsa. No dia seguinte (ontem), ao final da tarde, uma nota oficial interrompeu a escalada do pessimismo e, até o momento em que escrevo estas linhas, parece querer permitir um fechamento de semana mais tranquilo. Ainda que estejamos muito longe do caos instalado em Março de 2020 por conta da eclosão da Covid, há lições que podemos trazer para o momento atual. Minha recomendação é que adotemos a mesma postura daquela época, e isso quer dizer preservar a calma e manter o curso em termos de estratégias de investimento. Insisto, não é nem polianismo (positividade exagerada) nem o que os americanos chamam de efeito “deer in headlights”, quando cervos ficam petrificados pelas luzes de faróis, incapazes de sair da frente do automóvel que se aproxima. A sólida construção de portfólio, aliada à uma gestão ativa, mostra seu valor principalmente nos momentos de stress.
NFT
Desde a carta #80, quando tentei (creio que em vão), explicar o que são NFT´s (“non-fungible tokens”), tenho me cobrado uma forma mais didática de retornar ao assunto. O mercado financeiro é ambiente fértil para inovações em termos de ativos negociáveis, e NFT´s talvez sejam o expoente da vez. Esta semana, numa brincadeira com minha filha mais velha, nos lembramos do fenômeno que foi o bichinho de estimação virtual “Pou”. Uns 7 anos atrás, numa longa viagem ao interior, minhas filhas me infernizaram para deixá-las “investir” 2 reais na compra de um bichinho destes, que precisa ser virtualmente alimentado e cuidado para que cresça saudável. Qualquer semelhança com os chaveirinhos tamagotchi lançados no Japão na segunda metade dos anos 90, não é mera coincidência. Pois bem, o tal Pou não é tecnicamente um NFT, já que, por não ser único, é fungível. No entanto, o arquivo digital da imagem do Pou original poderia sim ser um ativo exclusivo, e portanto passível de negociação (e até eventual especulação) por parte de colecionadores. Deixo de dever de casa ao leitor googlar a foto do tal bichinho, já que o decoro editorial me impede de incluí-la aqui! 
Bitcoin
Um assunto que me parece passou desapercebido esta semana foi a confusão em El Salvador com a adoção do bitcoin como moeda oficial. A “Ley Bitcoin”, aprovada em junho deste ano, estabeleceu 7 de setembro como a data a partir da qual a criptomoeda seria aceita oficialmente no país. Pessoalmente, me parece uma experiência ousada. O “senhor mercado” parece concordar, já que naquele dia a moeda teve uma queda do patamar de 52 mil usd para 47 mil – ou algo como 10%. Do ponto de vista do povo daquele pais, seria como ver o dólar que hoje ronda os 5,20 reais saltar para 5,70 – de um dia para o outro! Já sob a ótica de relevância mundial para a validação desta criptomoeda, sinceramente acho que um evento mais significativo seria ver o Sr. Musk (Tesla) voltar à aceitar bitcoins pelos seus carros.
Risco, Episódio 2
Retomo o assunto da definição da palavra “risco”, no contexto de investimentos. Meu primeiro objetivo é sustentar a tese de que o grau de variação nos preços de um ativo não serve como uma boa medida de risco, ou pelo menos não de forma isolada. Para tanto, faço o uso do artifício da contraprova, buscando exemplos de ativos cuja falta de “balanço” não os torna necessariamente de baixo risco, e vice-versa. Imaginemos que meu leitor empreste 100k para seu cunhado (sempre eles!), por 12 meses, à um juros camarada de 10% ao ano. Se você é como eu, faria uma contabilidade mensal de tal ativo em sua planilha, capitalizando-o à 0,8% ao mês. Zero de variabilidade, com total expectativa de receber os 110k um ano depois. Lá pelo décimo mês, num almoço de domingo, você descobre que talvez os recursos atrasem “um pouco” para serem devolvidos – talvez até “um muito”. Aquilo que era uma rentabilidade certa, com nenhuma variação mensal, corre o risco de virar um write-off (baixa contábil). Exagero? Infelizmente, milhares de investidores na debenture de uma concessionária de rodovias sofrem atualmente do mesmo cenário. 
Riscos, Episódio 3
Adiantando as cenas dos próximos capítulos, falemos de imóveis. Imóveis são o tipo de ativo onde a gente raramente contabiliza variação em preço, especialmente naquela nossa planilha da ativos pessoais. Talvez, anualmente, façamos alguma previsão de ganho, com base nas condições de mercado, mas a maioria dos investidores que conheço prefere ser conservador e deixar o preço originalmente pago como base – aquele que consta no IR. Pois bem, podem transcorrer anos em que o valor daquele ativo permanece inalterado – de novo, zero de volatilidade. Agora, imaginemos um cenário neurótico em que, a cada dia, perguntássemos ao zelador do prédio, ao corretor de confiança, e àquele vizinho enturmado, qual o preço do metro quadrado das últimas ofertas e transações fechadas, atualizando nossa estimativa. Veríamos um preço de ativo com enorme variabilidade diária, ao sabor de descontos, benfeitorias, e oportunidades especiais, que em nada mudaria o fato de que imóveis são, em sua maioria, bens de baixo risco.



Esta semana, faço uma mudança de marchas brusca, e literal, para falar não de música ou cinema, e sim de carros. A dica da semana é pelo video de lançamento do “Tesla Model S Plaid”, disponível aqui. Os que me conhecem bem sabem que, posso até ser forçado à ter um elétrico nesta vida, mas, carro para mim tem que ter cambio manual, folga na caixa de direção e pingar óleo. Entretanto, impossível não tirar o chapéu para a incrível criação de Musk, quebrando a barreira dos 0 a 100 km/h abaixo de 2 segundos. Além do vídeo de apresentação, o youtube, na sua infinita busca por tomar um pouco mais do meu tempo livre, tem sugerido incontáveis vídeos de amadores testando a arrancada da máquina. Por falar em máquina, impossível não achar que o volante do Plaid é uma cópia do volante do K.I.T.T. do Knight Rider (“A Super Máquina”, seriado americano dos anos 80). E o nome do carro? Bem, aparentemente tanto a velocidade “ludicrous”, como o nome “plaid” são emprestados do filme Spaceballs  (“Tem um Louco Solto no Espaço”) de 1987 – uma divertida paródia ao filme Star Wars. O clip da cena em que ambos termos aparecem pode ser conferido aqui. Pelo jeito, Elon é tão fixado nos anos 80 quanto eu!

Esta carta semanal tem o objetivo de fazer um apanhado breve e bem-humorado das notícias do mercado financeiro, com foco nos temas de gestão de riqueza e planejamento financeiro. O texto não constitui nenhuma oferta de produto financeiro, ou recomendação de investimento. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem o posicionamento oficial da Portofino Multi Family Office.
Pedro Saboia é sócio da Portofino Multi-Family Office, investidor profissional, CEA (Certificação de Especialistas em Investimentos ANBIMA) e Consultor de Valores Mobiliários autorizado pela CVM, conforme instrução 592. A Portofino cuida das pessoas para que alcancem um futuro financeiro equilibrado – com ética, transparência e responsabilidade. Quer conhecer mais? Agende uma conversa.