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Família Portofino,

Se os mercados tinham dúvida quanto ao tamanho da preocupação do banco central americano com a desancoragem da inflação também pelos lados de lá, agora não têm mais. Na quarta-feira passada, o presidente Jerome Powell foi explícito em afirmar que a economia americana está crescendo de forma robusta, porém, com a inflação bem acima do objetivo de 2% e a situação atual é bem mais desafiadora quando comparado ao ciclo anterior de aumento de juros de 2015.

Naquela época a inflação rondava a casa dos 2% e o FED foi bem parcimonioso no processo de aperto monetário. Iniciou o ciclo de aumentos em dezembro de 2015 elevando a taxa básica de desconto de 0,75% a.a. para 1%. E o gradualismo pautou a estratégia; mais um aumento de 0,25% foi realizado em 2016, três em 2017 e, finalmente, quatro aumentos, sempre de 0,25%, em 2018. Interrompeu o ciclo de altas em 2,5% a.a.

Dessa vez, tudo indica que será diferente. O FED definitivamente não quis se comprometer com nenhum orçamento ou estratégia e foi claro em sinalizar aos mercados que agirá pautando-se nos dados de inflação a serem observados. Adiantou a intenção de iniciar o movimento já em março, porém, não descartou a possibilidade de elevar os juros nas sete reuniões desse ano, tampouco iniciar o ciclo em um passo mais agressivo de 0,50% a.a. A era do FED condescendente e preocupado com a reação dos mercados parece ter ficado no passado.

Não é por menos que os preços dos ativos vêm se ajustando a essa nova realidade. O S&P 500, por exemplo, amarga uma queda de 7%. No setor de tecnologia o impacto é ainda maior. A NASDAQ cai neste mês incríveis 12%! O que esperar então da bolsa brasileira, uma queda equivalente? Na verdade, não, nossa bolsa sobe este ano, 6,8%, abrimos um hiato para o S&P de quase 14%, isso sem considerar a valorização do Real! E o que explica tamanha diferença?

Muitas teorias foram ventiladas para se tentar explicar essa quebra inusitada de correlação. Possivelmente, a resposta mais intelectualmente honesta seja uma combinação de fatores explicativos. O preço das commodities vêm recentemente se apreciando, o que para o Brasil é sempre positivo. Dado o peso desse setor no Ibovespa, é bom também para o desempenho da nossa bolsa. Mas não foram só as empresas exportadoras de commodities que subiram. Bancos, empresas do setor imobiliário e até aquelas ligadas ao consumo doméstico, que dada as perspectivas para crescimento, juros e crédito não deveriam se beneficiar tanto, também se apreciaram. As commodities explicam em parte, mas não o suficiente.

Outro argumento que também circulou foi a dita percepção de que o ex-presidente Lula, líder absoluto nas recentes pesquisas eleitorais, havia acenado para uma composição mais ao centro do espectro político.  Ratificou, por exemplo, o modelo de independência do Banco Central e sua missão primeira de servir ao país e não àquele que assumir a presidência da república. Adicionalmente, ainda flerta com a possibilidade de ter o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, compondo sua chapa como vice. Acreditamos bem menos nessa teoria, dado que, é de se esperar que todos os candidatos, ora discursarão para a Faria Lima, ora para suas bases e militância. Nesta última sexta, por exemplo, Lula afirmou não ter compromisso com os acionistas da Petrobras e que não vê sentido em se atrelar os preços dos combustíveis aos preços internacionais do petróleo. A PETR4 chegou a realizar quase 5% depois desses comentários.

Por último, há que se reconhecer o aumento expressivo da participação de investidores estrangeiros na bolsa brasileira. Pelos dados fornecidos pela B3, investidores estrangeiros respondem esse ano por quase R$ 25 bilhões em compras líquidas até o dia 26, quase 25% do total de ingressos estrangeiros líquidos de todo ano passado.

Eles perceberam melhoras dos nossos fundamentos? Na verdade, não. Até porque não tivemos melhora alguma, no cenário macroeconômico local e estes investimentos não foram um privilégio tupiniquim. De forma geral, países que se apresentavam com câmbio desvalorizado, simultaneamente com queda importante de seus mercados de renda variável nos últimos 12 meses, que já haviam se adiantado no processo de elevação dos juros domésticos e preferencialmente exportadores de commodities, todos esses se aproveitaram desse fluxo. Já faz algum tempo, investidores estrangeiros iniciaram a rotação de seus portfólios vendendo empresas de crescimento e comprando empresas de valor. Aquelas que satisfizeram as condições descritas anteriormente, foram favorecidas. Além do Brasil, os mercados chileno e peruanos, por exemplo, se enquadram nesse perfil e apresentam comportamento semelhante.

Na busca por barganhas, fugindo do ambiente de política monetária de baixa previsibilidade, principalmente nos Estados Unidos e na contramão dos investidores locais, os estrangeiros são compradores. Essa surpresa era o gatilho que faltava para que parte pelo menos do nosso mau desempenho em 2021 fosse corrigida. Não esperamos que esse comportamento de performances antagônicas prevaleça por muito tempo, mas estávamos precisando dessa injeção de ânimo.

Desta vez, graças aos nossos amigos gringos. 

Aproveitem o final de semana!

Eduardo Castro.

“Causa e Efeito” é um conteúdo exclusivo para clientes Portofino, que traz uma visão técnica sobre o que aconteceu no mundo, na semana e seus reflexos nos mercados financeiros globais. Por Eduardo Castro, CIO (Chief Investment Officer) Portofino Multi Family Office ®.