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Semana novamente dominada pelo agravamento de temas locais recorrentes: descompasso fiscal, reformas erráticas, embates políticos, e uma crise energética que parece cada vez mais certeira.

No calendário, temos um feriado de 7 de setembro na terça que vem carregado de polarização e incerteza. E, o final da semana, mais precisamente sábado dia 11, marca o aniversário de 20 anos da tragédia de 9/11 nos EUA. 

Permito-me repetir o comentário que fiz na carta #79, em março deste ano, quando as médias diárias de óbitos devido à Covid rapidamente se aproximavam de 3000: “O mundo parou para olhar aqueles ataques às torres gêmeas, enquanto sites de notícias congelavam sob o peso da humanidade tentando entender o que acontecia. Aqueles eventos, que aterrorizaram o mundo e inauguraram uma nova era do medo, contabilizaram 2,977 mortes.

Prometo me esforçar ao máximo em buscar um olhar positivo e construtivo para os temas que selecionei.

Final de Mês
Comecemos pelo bode na sala. Sob qualquer medida, tivemos mais um final de mês de resultados pouco inspiradores para nossos investimentos. Classes de ativos de risco universalmente sofreram sob o peso de tantas notícias negativas. Na minha fatura, estamos já há 3 meses contabilizando finais de mês desapontadores. Desde aquela sexta-feira, 25 de junho, onde o powerpoint da proposta de reforma tributária começou a circular, mercados não tem tido trégua. Se o final de junho foi atrapalhado pelo balde de água fria que representou a versão inicial da proposta, o término de julho padeceu de ruídos em torno do parcelamento de precatórios, votação eletrônica, e bolsa família. Em agosto, apesar da semana passada (carta #102) ter terminado em tom positivo, a divulgação da proposta de orçamento do governo para 2022, admitidamente ainda muito crua, parece ter azedado o finalzinho do mês. “No creo en brujas … ”, mas parece haver um esforço cósmico concertado de divulgação de pautas bombas no final de mês – especialmente quando, por exemplo, bolsas americanas vivem um excelente momento. Minha recomendação? Fiquemos alertas à amplamente documentada fixação do ser humano pelas notícias ruins. Ainda que o viés da negatividade tenha nos trazido até aqui como espécie, talvez devamos ficar alertas à seus efeitos acumulados, quando somos bombardeados pelo fluxo incessante de notícias. Afinal, e sem nenhuma crítica implícita, como dizem nossos vizinhos do norte, “bad news sells”.

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Reforma Tributária
Fomos surpreendidos na quarta à noite com a aprovação às pressas da reforma do IR na câmara. O famoso investidor fundamentalista Benjamin Graham (1894-1976) certa vez declarou que “In the short run, the market is a voting machine but in the long run it is a weighing machine.” Ou seja, o curto prazo estaria muito mais próximo de um concurso de popularidade, sendo que no longo prazo o real valor das ações “pesaria”, refletido no preço. Bem, ontem, quinta-feira, o “sr. mercado” votou… e votou pesado, ao tom de uma queda de 2,28% no índice Ibovespa – e com reflexos no mercado de juros. Pelo andar de hoje, as urnas continuam abertas. Claramente é um assunto para acompanharmos de perto, agora que a reforma segue para o senado. No entanto, a forma atabalhoada como o assunto foi conduzido não agradou ninguém. O brilho de uma medida estimulativa, a redução do IR das empresas, parece ofuscado pelos inúmeros efeitos de segunda ordem, e eventuais desarranjos econômicos, que assuntos como a tributação de dividendos pode trazer. Seguimos mapeando os impactos nas diversas classes de ativos que recomendamos, e nossas portas permanecem abertas para famílias que desejem explorar situações específicas.

Orwelliano
No começo da semana foi divulgada uma notícia que ganhou pouca atenção, porém que creio reforça a visão de uma China cada vez mais reguladora daquilo que o partido entende como “ópio espiritual” (carta #99). Aparentemente, a China estaria limitando o número de horas que crianças podem jogar online à 3… por semana! Não apenas isso, os horários permitidos para tais atividades também seriam restritos. Como pai de duas adolescentes plugadas, neste caso não em jogos mas em TikTok e Insta, secretamente comemorei a notícia. Mandei imediatamente para elas por nosso grupo familiar de whatsapp, ação que foi recebida com um gélido episódio de “ghosting” – em português: deram de ombros. Sinceramente não tenho a menor ideia de como o partido pretende implementar tal política. Independentemente disso, há um certo ar de “1984” (romance distópico de George Orwell) no ar, indo desde bitcoin e sistemas de pagamento, passando por educação e terminando em entretenimento. China continua sendo uma tese de investimento internacional importante, mas claramente exige que percebamos que as coisas por lá funcionam diferente do que provavelmente estamos acostumados.

Riscos, Episódio 1
Prometi iniciar uma minissérie sobre o tema risco. Já fui questionado sobre esta divisão artificial de temas mais complexos em várias cartas. Se de um lado odeio o fenômeno das cenas dos próximos capítulos, do outro, trabalho duro para fazer esta leitura semanal caber em poucos minutos do final de dia do meu leitor. Mas, vamos lá: tendo concluído a exploração sobre o que seriam retornos razoáveis esperados, e fazendo a ponderação sobre o nível de risco assumido por uma dada família, é natural que surja a dúvida: afinal, o que é risco? Como se mede? O que come, e onde habita? Comecemos por algo que o risco não é, ou pelo menos não é necessariamente. Proponho aqui que volatilidade (ou o grau de variação de preços) de um certo ativo não é necessariamente uma boa medida de risco. Peguemos emprestado um exemplo da engenharia: asas de avião não são rígidas. Olhando pela janela do avião, vê-se claramente que há intensa flexão destas enormes estruturas.  As asas de um moderno Boeing Dreamliner 787 conseguem fletir incríveis 7,6 metros antes de entrar em falha – muito acima de qualquer cenário normal de operação. Neste caso, uma estrutura rígida seria muito mais arriscada do que o projeto atual. Um certo grau de flexibilidade (volatilidade), dentro de limites, não é apenas esperado, mas faz parte integral do projeto. Pontes e edifícios altos são projetados considerando este mesmo princípio. História curiosa, para cariocas saudosistas como eu: o famoso e controverso edifício “balança mais não cai”, inaugurado em 1948, na época de Vargas, está de pé até hoje, devidamente revitalizado, e inspirou até programa humorístico na Globo dos anos ‘70 !

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Sei que arrisco alienar alguns queridos leitores com a dica desta semana, mas, ainda que filmes de terror não sejam de apelo universal, minha recomendação tem uma história por trás, e vem com pedigree de ninguém menos que o famoso escritor Stephen King. Voltemos ao ano de 1980. Jack Nickolson e Shelley Duvall estrelavam em “The Shining” (“O Iluminado”) de Stanley Kubrick. As coisas demoravam para chegar no Brasil naquela época, então eu provavelmente vi o filme lá por ’83, numa fita VHS, já adolescente e relativamente interessado neste tipo de estética. “The Shining” talvez tenha sido o primeiro filme do gênero a alcançar grande projeção mainstream, provavelmente pela brilhante atuação do ensandecido Nicholson, e pela hábil direção de Kubrick (sim, o mesmo de “Laranja Mecânica”). Assistir à película era visto como um rito de passagem para os interessados no gênero, com lendas urbanas especulando que nunca mais seríamos os mesmos. Pois bem, a dica da semana fica com “Doctor Sleep” de 2019, que é justamente baseado no livro de King que é a sequência à história que inspirou o original. Ainda que não seja uma obra-prima tão chocante como a primeira, o enredo, com quase 40 anos, envelheceu bem e retoma a trama do ponto de vista do filho do casal original. Ewan McGregor, até onde me lembro, estreia no gênero. Mesmo que meu leitor não ame o estilo, Stephen King é um ícone da literatura americana, e as adaptações à telona costumam honrar a obra original. Eu só encontrei na HBO, aquela do catálogo excelente mas do app de streaming sofrível. Se precisar de companhia para assistir, como eu precisei lá no começo dos anos ’80, pode encomendar a pizza e me chamar!

Esta carta semanal tem o objetivo de fazer um apanhado breve e bem-humorado das notícias do mercado financeiro, com foco nos temas de gestão de riqueza e planejamento financeiro. O texto não constitui nenhuma oferta de produto financeiro, ou recomendação de investimento. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem o posicionamento oficial da Portofino Multi Family Office.
Pedro Saboia é sócio da Portofino Multi-Family Office, investidor profissional, CEA (Certificação de Especialistas em Investimentos ANBIMA) e Consultor de Valores Mobiliários autorizado pela CVM, conforme instrução 592. A Portofino cuida das pessoas para que alcancem um futuro financeiro equilibrado – com ética, transparência e responsabilidade. Quer conhecer mais? Agende uma conversa.